Duas mortes
Duas Mortes
Há duas mortes que nos aguardam na travessia da existência.
A primeira é a morte biológica — quando o corpo, exausto de sua dança terrena, se rende ao fluxo imutável da vida. A segunda é a morte do esquecimento — o dia em que nosso nome deixa de ser pronunciado, nossas histórias cessam de ser contadas, e nossa presença se desfaz na névoa do tempo.
Para alguns, a morte do esquecimento acontece ainda em vida — e essa, talvez, seja a mais dilacerante de todas.
A Morte Biológica
Chega silenciosa, como um vento que apaga a chama de uma vela.
Pode anunciar-se em sussurros ou desabar repentina, como um trovão em céu azul. Não faz distinções. É inevitável, universal, democrática.
Então, o coração silencia, os pulmões cessam seu ritmo, e o corpo — que um dia abrigou sonhos, afetos e batalhas — torna-se apenas matéria. Mas há uma beleza oculta nesse instante. Uma quietude sagrada.
É como se a vida sussurrasse: "Descansa, tua jornada aqui está completa."
A Morte do Esquecimento
Essa morte, porém, é mais insidiosa. Não chega de súbito, mas avança em sombras, dissolvendo vestígios de nossa passagem.
Primeiro, as fotografias desbotam, esquecidas em caixas empoeiradas. Depois, as histórias que um dia vibraram na voz dos que nos amaram perdem o brilho, até que ninguém mais se lembra dos detalhes. Por fim, o nome — aquele som que um dia nos definiu — deixa de ser pronunciado.
E é então que a segunda morte se consuma. Quando o último eco de nossa existência se esvai no vento, quando não resta mais ninguém para lembrar de nossos gestos, nossos erros, nossos amores.
Mas, para alguns, essa morte acontece antes mesmo da biológica. Ocorre no olhar vazio de quem já não é visto. No silêncio de quem já não é chamado. No esquecimento de quem, embora vivo, já não pertence ao mundo dos que respiram.
Essa é a morte mais cruel — porque não nos priva apenas do futuro, mas também do presente.
E então, pergunto-te: que marcas tens deixado no tempo?
Já fizeste algo que fará alguém agradecer por tua existência para sempre? Já plantaste uma semente de amor, de beleza, de inspiração que continuará a crescer mesmo quando tua presença for apenas um sussurro na memória do mundo?
Porque, no fim, não é o corpo que nos mantém vivos, nem a lembrança alheia. É o impacto que causamos, os corações que tocamos, os gestos que transformam.
Enquanto vivemos, temos a chance de desafiar a morte do esquecimento. Podemos amar com intensidade, criar com paixão, servir com generosidade. Podemos ser a luz que ilumina o caminho de alguém, a palavra que conforta, o abraço que aquece.
E assim, mesmo quando o tempo nos esquecer, nossas sementes permanecerão vivas.
Invisíveis. Mas eternas.
✨ Te amo,
Hector Othon.
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