Quadratura entre Vênus em Capricórnio e Quiron em Áries (22°)

 Monólogo — 

Reververações no astral da Quadratura entre Vênus em Capricórnio e Quiron em Áries (22°)

(Presente contínuo. Duas vozes em mim. Um só corpo em conflito.)


Eu deixo escapar.
Eu deixo escapar como quem solta a corda achando que ainda controla a ponta.

Sou Quíron em Áries:
Sou o impulso ferido.
Sou a criança armada de coragem que ataca antes de sangrar.
Penso: estão na minha cola.
Sinto: vão me tomar, vão me invadir, vão me apagar.
Então eu avanço — não para amar, mas para me defender.
Fico grossa.
Fico dura.
Fico indiferente.
Se ele me quiser que insista até me ganhar.
Chamo isso de força, mas é medo em posição de ataque.

Sou Vênus em Capricórnio:

Sou o amor que exige provas.
O amor que se constrói com presença, constância, respeito.
O amor que divide seu tempo com o trabalho, para realizar o que planifico.
Vejo o outro se aproximar e penso: merece? sustenta? fica?
Quando não vejo estrutura, retiro o afeto como quem fecha uma porta para não perder a casa inteira.
A frieza é meu terno.
A distância, meu escudo.

E assim eu ajo.
E ele vai ficando longe.
Pouco a pouco.
Com aquela cara de quem sofre —
e isso me irrita, porque me lembra que ainda importo.
Vai, vai, me deixa em paz que tenho muita coisa para fazer.

Quíron em mim grita:
— Não confia! Homem troca. Homem foge. Homem só fica se você se molda! E também se eu cedo e não faço o que quero, depois ele nem agradece e no fim me deixa, por isso sou assim e se ele quiser que insista.

Vênus em mim sentencia:
— Quem não sustenta o amor com maturidade não merece intimidade.

Eu justifico.
Eu racionalizo.
Eu digo: tratei como ele merecia.
Digo: ele já estava me decepcionando.
Digo: eu não o queria mais.
Mas agora — Ele foi. Meu amor se foi!
Bem que minha mãe falava: o que não se cuidar ou morre ou se vai.
Ele se foi
e agora ele está nos braços de outra.

E algo rasga.

Quíron sangra.
Estou com Raiva.
Com Ciúme.
Humilhação.
A ferida antiga se abre:
Por qualquer coisa nos trocam.
É só não fazer o que eles querem.

Vai ver que ela é o seu sonho:
“Mulherzinha igual à mãe.”
Neste pensamento mesquinho, percebo o quanto ainda estou presa à ferida que nunca cicatrizou.

Vênus treme.
Vejo seu valor tarde demais.
Vejo o afeto que existia.
Vejo o amor que estava sendo construído — devagar, como ele gosta —
Vejo que eu mesma congelei. que eu o amava, que com ele eu tinha prazer, que ele me falava o que eu tanto escutava ouvir, lembro o quanto era bom estar com ele.

Eu lembro de outro dito da minha mãe.
A voz dela ecoa como lei antiga:
— "Todo cuidado é pouco".

E eu na verdade não tive o mínimo cuidado ainda sentindo ele cada vez mais distante. Tenho que ser sincera até que pensei que seria bom largar dele

E foi.

E agora eu estou aqui.
Sofrendo.
Com saudade.
Com orgulho ferido.
Com amor represado.

Quíron pergunta:
— Por que atacar quem só queria ficar?

Vênus responde:
— Porque confundi maturidade com controle.
— Porque exigi solidez sem oferecer calor.

Esta quadratura representa meu inferno íntimo.
O desejo de ser amada lutando contra o pavor de depender.
A coragem ferida brigando com o amor que quer tempo, responsabilidade e presença.

Eu vejo agora.
Mas ver não impede a dor.

Que inferno esse jeito de funcionar as emoções.
Que guerra dentro de mim.
Que amor perdido por medo de amar errado.

Para de pensar. Tudo isso é passado. O presente é a vida cheia de posssibilidades.

Aceito.
Aprendo.
Ressignifico.

Talvez ele volte.
Talvez não.

Hoje eu entendo:
o amor não volta por insistência,
nem permanece por dureza.

Se ele voltar,
não será para ocupar o lugar da minha ferida,
mas para caminhar ao lado da minha consciência.

E se não voltar,
eu sigo.
Mas sigo diferente.

Não sigo negando a dor,
nem me endurecendo para não sentir.
Sigo mais atenta.
Mais honesta comigo.
Mais responsável pelo que ofereço
e pelo que retiro.

Quíron em mim aprende
que coragem não é ataque,
é permanência no sentir.

Vênus em mim aprende
que maturidade não é frieza,
é calor sustentado no tempo.

Não perdi o amor.
Perdi uma forma antiga de amar.

Celebro o que a vida ainda tem para me dar.
Celebro o que aprendi sobre mim.
Celebro o amor —
não o que foi embora,
mas o que agora pode ficar.

(Silêncio.
As duas vozes respiram no mesmo peito.
Não em guerra.
Em escuta.)

(Silêncio. As duas vozes respiram no mesmo peito.)

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